Conversei
com uma pessoa esses dias que estava sofrendo muito. Além do border, ela sofreu
uma perda.
Na
verdade, essa pessoa chegou a mim por ter amizade com meu marido. Então ele
começou a me perguntar “o que é isso? O que é aquilo?”, e a conversa
desenvolveu.
Sabe
uma coisa chata? Adilson foi minha salvação, vocês sabem, mas eu não via esse
interesse em entender minha doença... Não disse que não havia, mas que eu não
vi isso. E gostaria, sim, que ele tivesse tentado entender melhor o processo.
Aí,
no meio da conversa ele solta “mas a sua depressão foi levinha...” OI?
Eu
tentei me matar, passei um tempo bebendo pra levantar da cama, quase tentei outra
vez...”Levinha?”
Como
eu não respondi, ele emendou com um “Não foi?”
A
verdade é que a distância das crises, o fato de eu ter finalmente melhorado e
depois estabilizado, fez com que ele pensasse que todo mundo consegue se eu
consegui OU que já que a maioria das pessoas não consegue estabilizar sem
remédios ou terapia como eu, logo, meu caso era muito mais leve.
Sei
não... Quando a gente chega ao ponto de querer realmente morrer... É grave, né?
Mas
eu tomei uma porrada de remédios leves, logo, eu não queria morrer, queria chamar
atenção. Não era o que eu pensava na época, mas foi o que pensaram de mim. Um
monte de gente minimiza esse tipo de situação, mas a pessoa achar que precisa
tentar se matar pra ser ouvida ou vista também não é grave? Pra mim, é.
Muitas
coisas que eu passei e que outras pessoas passam hoje, são encaradas como
frescura. Mas só quem passou pela confusão mental que nós passamos pode
entender.
Já
conversei sobre isso com muitas pessoas e cheguei a essa conclusão, não só pela
minha experiência. Por mais que a pessoa que segura sua barra te ame, seja
amigo de verdade, a menos que ela tenha passado por isso ou estudado pra lidar
com isso, não, ela não entende.
Nem
dá pra explicar com palavras... A gente se sente sozinho, à beira da loucura,
sem controle nenhum sobre o que sente ou pensa. A gente se perde, não sabemos direito
quem somos. Só queremos ser salvos da sensação de não sermos o bastante, de não
merecermos nada do que temos.
As
pessoas querem racionalizar, tentam achar uma razão concreta pra você estar tão
mal assim, mas não tem. Alguma coisa desencadeia um processo químico no seu
cérebro, a gente não fica assim porque quer. Não é gostoso ser bipolar ou
borderline ou qualquer outra coisa. O próprio vitimismo que acomete muitos de
nós, e que irrita a maioria das pessoas, é um sintoma. É uma fraqueza perante a
vida, que dói, pois todo nós queremos conquistar as coisas por nós mesmos,
queremos nos orgulhar das nossas conquistas.
Nas
pessoas saudáveis o valor que elas se dão vem de dentro delas mesmas, vem do
senso de apreciação que você tem por si mesmo. Quando estamos emocionalmente doentes,
esse valor vem dos outros, da atenção, do carinho que os outros nos dão. Se
ninguém nos dá isso, nós não valemos nada na nossa mente doente. E o resultado
disso é dor, pura dor.
Por
isso, quando o Adilson se apaixonou por mim eu fiquei obcecada. Queira estar ao
lado dele o tempo todo, não queria que ele se divertisse longe de mim, que ele
saísse sem mim, que ele conhecesse outras pessoas, pois ele poderia perceber
que era muito melhor e mais divertido ficar longe de mim e terminar o namoro.
E
esse sentimento foi constante pra mim nos primeiros anos de namoro. ANOS. Foram
anos querendo controlar o que ele fazia, aonde ia, o que sentia, o que
pensava... Eu sofria de um pânico total, um pavor genuíno de ele encontrar
outra mulher mais bonita, mais inteligente, mais divertida, principalmente que
não fosse “louca” e percebesse que ele era um burro de estar comigo. Eu
realmente acreditava nessa loucura!!
E
quase o enlouqueci tentando controlá-lo.
Ninguém
é obrigado a estar com ninguém. Se ele persistiu em ficar comigo tanto tempo,
ora, algum valor eu tenho, né? Mas por mais óbvio que isso seja, por mais
lógico, eu não enxergava!
Hoje
eu sei que eu tenho inteligência, sei conversar, sou simpática, tenho empatia,
sou diplomática, tenho inúmeras qualidades. Beleza, não, mas também não podia
ter tudo, né? Kkkkkkk
Quando
eu conto as coisas que eu fazia, as pessoas não entendem direito porque elas
não me viram desse jeito. Mas eu era muito surtada, muito desequilibrada,
apesar de disfarçar. Eu só parecia estranha, introspectiva, quieta.
Pra
quem está passando por isso, e tem sempre gente nova chegando por aqui, ainda
bem, não tem muito o eu falar pra ajudar. Passa. Apesar de parecer que não, vai
passar. Apesar de parecer que vamos enlouquecer, vai passar.
Mas
não passe por isso sozinha. Procure ajuda médica, procure um familiar, um
amigo, alguém disposto a te ouvir, a te ajudar, a estar presente. A pior coisa
nessa hora é a solidão, é a sensação de vazio, de abandono.
E
tem mais uma coisa: a gente, quando está na pior, espera muito dos outros.
Principalmente se temos uma relação próxima com outra pessoa que sofra do mesmo
mal.
A
nossa tendência é achar que, já que eu passei por isso, sou a pessoa mais
indicada pra segurar a barra de quem passa por isso agora. Ao contrário. Sou a
menos indicada, porque eu me lembro do que eu passava, do que eu fazia... E
essas lembranças são dolorosas.
Não
me importo de ouvir, de ajudar, de prestar minha solidariedade, mas pra cuidar
realmente de alguém deprimido, não é pra mim. Dá uma transferência e, a certa
altura, eu começo a cair, a ficar triste e isso é muito perigoso. Então, não
espere que aquela pessoa que você cuidou quando estava tão bem faça o mesmo por
você hoje. Talvez ela faça, talvez ela não consiga.
Uma
pessoa me perguntou “mas isso não é o justo? Eu era a única pessoa que o
ajudava e agora que eu to mal, ele tem que fazer o mesmo por mim”. Pode até ser
justo, mas não é fácil. Quando você melhora, quando você estabiliza, você
precisa ter um tempo pra se distanciar do seu sofrimento recente.
Imagina
o seguinte: imagina que alguém sofreu um estupro. Assim que ela se recupera
fisicamente, você acha que ela tem condições de fazer um trabalho de
recuperação com pessoas que também foram estupradas? Lógico que não. Depois de
um tempo, de ela ter um distanciamento, aí, sim. Depois de reconquistar o
equilíbrio, sim.
É
a mesma coisa. Depois de um tempo posso ajudar, como eu tenho tentado fazer, as
pessoas que passam pelo que eu também passei, mas imediatamente após o início
da estabilização, não dava. Eu precisava viver, precisava respirar. Precisava
me olhar no espelho de frente, me encarar e gostar do que via. Precisava me
acostumar a essa sensação.
Como
eu também já contei aqui, muitas vezes, ao passar por situações que me
deixariam muito mal e não ter as mesmas reações anteriores, eu estranhava.
Eu
ficava na expectativa de cair. Sentia que algo estava faltando... Até a sofrer
a gente se acostuma. Eu fui deprimida a vida toda, não sabia como eu era sem a
depressão. As crises eram tudo que eu conhecia, a ponto de me sentir quase
confortável com elas e me sentir perdida quando os meses se passaram e elas não
vinham.
É
muita doideira ou não?
Então,
meu segundo toque: não espere pela ajuda daquela
pessoa. Procure ajuda de quem estiver disposto a te ajudar no momento mais
urgente.
Pela
lógica, sim, a pessoa a quem você ajudou deveria fazer o mesmo por você quando
você estiver na mesma situação. Mas as pessoas são feitas de nuances, as coisas
não são só pretas e brancas.
Na
vida não tem certezas matemáticas, as probabilidades são infinitas.
Então
se cuida, se fortalece, procure ajuda. A única certeza da vida é a de que a
única responsável por você é você mesmo.
Se
você não se ama acima de tudo, tem algo errado. Tome uma atitude. Só você nasce
e morre com você, aprenda a se cuidar, a se apreciar.
Você
tem qualidades, você tem valor. Se mexe e vai procurar .
Você
é único, quer mais que isso?
Bj.